sexta-feira, 26 de maio de 2017

Damnatio ad bestias: o novo Coliseu se chama Facebook

Quem não conhece alguém que, de alguma maneira, sofreu um linchamento público no Facebook, atire a primeira pedra. Uma vidraça de grande alcance que tem os tentáculos quase infinitos pela cultura do compartilhamento. A popularização da rede descentraliza a informação, destaca os indivíduos que agora têm a possibilidade de se expressar, ser “ouvido” e reverberar as informações e opiniões. Desde 2011, o Facebook tem sido um canal mobilizador de muito sucesso. A Primavera Árabe só foi possível graças a ele e ao Twitter. Mas quando uma rede social passa a ser arena de guerra e, o pior, de linchamento público sem chance de defesa?
Tenho um professor que diz que o Facebook “abriu às portas do inferno” e não vejo isso com exagero. Liberdade de expressão é principio constitucional. Mas a intolerância, o pré julgamento, a pressa em informar, opinar, destruir reputações encontraram um canal para ecoar o que temos de pior.
Ronaldo Lemos, no livro “A vida em rede” fala sobre a sua preocupação de como o Facebook tem se tornado uma espécie de Coliseu onde cada semana, por exemplo, uma pessoa sofre uma espécie de linchamento público. “Às vezes o personagem público ou privado é escolhido e permanece, durante uma semana ou mais, no centro da esfera pública, sendo repreendido ou julgado e condenado pela multidão. Uma semana depois, todo mundo já esquece e é a vez de outro cidadão, totalmente diferente, ocupar a posição de dentro do Coliseu, e assim por diante."
Tempos estranhos, onde a história se repete a partir de outras ferramentas. A internet é a quarta evolução tecnológico-comunicativa e o Homo Tecnológicos não sabe lidar com os princípios básicos de civilidade. Começo efetivamente a concordar com o velho Bauman, “as redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.” De resto é torcer para não ser a atração da vez, porque a multidão quer espetáculo!

quinta-feira, 2 de março de 2017

O mundo exposto: como entender a sociedade da transparência


Finalizando a minha saga para entender a filosofia de Byung-Chul Han, termino a leitura do seu terceiro livro “A Sociedade da Transparência”. Comecei a mergulhar no seu universo pelo livro “A Agonia de Eros” e depois fui para “Sociedade Cansada”. Han é, como todo filósofo, observador atento e problematiza seu tempo. Pontua elementos que vem transformando significativamente a sociedade e não apenas por causa da revolução digital.
Ele analisa, nesse livro, o que chama de ‘tempo transparente’, um tempo destituído de destino e de todo o conhecimento. Uma realidade desembaçada, sem mistério e negatividade que torna-se pornográfica. O dinheiro torna tudo comprável e a sociedade do consumo torna tudo “um inferno do igual”.
Han é um grande crítico dessa busca por transparência, operacionalidade que destitui qualquer tipo de ambivalência. O autor cita Richard Sennett para caracterizar a sociedade que necessita de papeis a serem executados. Uma representação tão necessária para a vida pública. A sociedade positiva não admite sentimentos negativos. O amor, por exemplo, é domesticado e positivado como fórmula de consumo e conforto.
Na sociedade exposta, cada sujeito se torna seu próprio objeto de publicidade. O valor da exposição é a medida de tudo, “tudo é entregue, nu, sem segredo, à devoração imediata”. Todos os rituais são eliminados porque se tornam um obstáculo à aceleração dos ciclos de informação, da comunicação e da produção. Claro que as redes digitais servem de análise para essa aceleração e evidência narcísica. Han cita, “Os social media e os motores de busca personalizados erigem na rede um espaço próximo absoluto, do qual o fora foi eliminado. É um espaço onde nos encontramos somente a nós mesmos e aos que se assemelham a nós. Não há qualquer negatividade que torne uma mudança possível. Esta proximidade  não apresenta ao participante senão essas secções do mundo a seu gosto. Desse modo, desintegra a esfera pública, a consciência pública, crítica, e privatiza o mundo. A rede transforma-se numa esfera íntima, ou numa zona de bem-estar. A proximidade, da qual toda a distância do longe foi eliminada, é também uma forma de expressão da transparência.”

Portanto, a hiperconectividade e a hiperinformação não traz mais luz e liberdade, muito pelo contrário, vivemos um outro tipo de panóptico. Nenhum muro separa dentro e fora mas, a vigilância se torna diferenciada. Não mais há um “ataque à liberdade”, hoje voluntariamente cada um se entrega ao olhar panóptico. Somos algozes e vítimas. É a dialética do presente.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Sociedade do cansaço


O título desse texto é igual ao do livro do filósofo sul coreano Byung-Chul Han, que chama a atenção para uma sociedade contemporânea baseada na positividade e hipervisibilidade. O livro é pequeno, mas de um conteúdo impressionante. Um verdadeiro raio X dos reflexos de uma mudança, ainda bastante imprevisível, de uma sociedade que transmuta da disciplina para o desempenho.
Han  alerta que estamos em uma sociedade que caracteriza-se pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza. O estranho cede lugar ao exótico onde, por exemplo, os imigrantes são consideramos mais um peso do que uma ameaça. Vivemos uma violência da positividade, ou seja, a negatividade, a contestação perde espaço para uma transparência que muito mais vigia do que liberta. Vivemos tempos de superprodução, superdesempenho e supercomunicação... e não estamos dando conta disso!
A sociedade disciplinar de Foucault foi substituída pela sociedade do desempenho e produção. As pessoas são empresárias de si mesmas, mesmo trabalhando em fábricas, etc. A busca incessante pelo melhor desempenho pode garantir melhores posições, mesmo que isso custe, inclusive, a saúde mental. Para Han, a sociedade disciplinar era regida pela negatividade, pela proibição, coerção. A sociedade do desempenho se distancia dessa negatividade: o poder ilimitado, o “yes, we can” expressa o caráter da positividade. “No lugar da proibição, mandamento ou lei, entram o projeto, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados”, diz Han.
Esse excesso de positividade também se configura em excessos de estímulos, informações e impulsos. A multitarefa não representa nenhum avanço civilizatório, muito pelo contrário, há uma preocupação maior em sobreviver (muito se aproxima de instintos selvagens) e perde-se o poder contemplativo, a tolerância ao tédio – visto de forma importante para o processo criativo. Ao citar Hannah Arendt, o autor compara a figura do animal laborans – animal trabalhador – moderno, ao animal laborans pós-moderno que individualiza-se na sociedade do desempenho. Ele pode ser tudo, menos passivo. É hiperneurótico e hiperativo.
Para o filósofo sul coreano é pura ilusão acreditar que quanto mais ativos somos, mais livres nos tornamos, “a sociedade do cansaço, enquanto sociedade ativa, desdobra-se lentamente numa sociedade de doping”. Esse cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço solitário que individualiza e isola.
É importante pensar em tudo isso muito seriamente, as palavras de Byung-Chum Han saem do campo epistemológico e sentimos na prática, nesse cotidiano voltado para o desempenho. Como o autor bem diz, “o excesso de elevação do desempenho leva a um enfarto da alma”.... sim, para a OMS, por exemplo, são mais de 300 milhões de pessoas com depressão no mundo. Não se pode mais fechar os olhos para isso.
Chegamos ao ponto de materializar as palavras do escritor Peter Handke.... “eu não estou cansado de ti, mas cansado pra ti”. Viver não está sendo fácil!

  Por Juliana Almeida


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

#vertigemdigital? Um olhar sobre o livro de Andrew Keen

Como professora de cultura digital, me vi na obrigação de ler o livro tão badalado de um dos empreendedores pioneiros do Vale do Silício, Andrew Keen. “#vertigemdigital: porque as redes sociais estão dividindo, diminuindo e desorientando” traz um panorama de que pensam os “cabeças” do Vale do Silício, criadores das redes sociais mais influentes do mundo. Entre citações filosóficas, delírios foucaultianos e devaneios cinematográficos de Hitchcock, Andrew Keen traça um perfil bem pessimista do desenvolvimento das redes sociais digitais, seus impactos na nossa privacidade e identidade. Confesso que a leitura não me convenceu.
O livro é uma mistura de diário de bordo e experiências vividas pelo autor que o inquietaram a ponto de escrever o livro. Diante do cadáver do filósofo iluminista Jeremy Bentham que, para atender sua vontade, tem seu corpo exposto no Autoícone, na Universidade Oxford, ele desperta para os perigos da exposição sem limites e como, ele mesmo, tenta frear seus impulsos de compartilhamento na rede.
O futuro do mundo é social. Isso é dito em todo o livro. Seria, inclusive, uma profecia feita por Mark Zuckerberg, criador do Facebook. E isso não será nada bom. Segundo Keen “a mídia social hoje estilhaça nossas identidades, de modo que sempre existimos fora de nós mesmo, incapazes de nos concentrar no aqui e agora, aferrados demais à nossa própria imagem, perpetuamente revelando nossa localização atual, nossa privacidade sacrificada à tirania utilitária de uma rede coletiva”.
Ora, nós ainda não vivemos em uma sociedade tecnocrata e ainda impomos nossa vontade sobre a tecnologia. Somos bastante influenciados, sim. Mas o poder ainda está em nossa decisão do tamanho da exposição que teremos. Essa visão determinista de Keen realmente me incomoda durante toda a leitura.
Que a sociedade em rede se tornou um “bacanal transparente’ eu ate concordo. Há excessos em tudo. Não temos mais o tempo e o espaço como regulador das nossas ações. Como bem diz Manuel Castells “são espaços de fluxos e tempo intemporal”. É um outro plano de realidade. Keen parte de conceitos e afirmações que não  deixam clara sua linha de raciocínio. Ao dizer que TUDO se  tornará social, não é o bastante para entender todos os malefícios que a revolução tecnológica nos espera.
Assim como a Revolução Industrial mudou o rumo da humanidade, a revolução tecnológica tá cumprindo o seu papel. Difícil prever o futuro. Difícil entender uma sociedade que sai do fordismo para, segundo David Harvey, atuar na acumulação flexível. Estamos no meio das mudanças onde o analógico e o digital se encontram. Não temos como avaliar tudo isso “friamente” porque a revolução está acontecendo agora.
A questão que envolve a privacidade não é discurso novo. Richard Sennett traz no seu maravilhoso livro “O declínio do homem público”, que a intimidade no século XVIII já era algo discutido e os limites entre o que é público e privado também.
Keen destaca que estamos desenvolvendo um comportamento de rebanho, na perspectiva do “compartilhamento sem atrito” possibilitado pelas redes sociais. Ora, o que a cibercultura nos proporciona é um encontro por afinidades, uma renovada forma de ‘tribalização’ do mundo. Não há fronteiras para estabelecer laços que, por sinal, são multifacetados, fracos e especializados.
Ao citar Karl Marx, “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem segundo seus desejos; não a fazem nas circunstâncias  que eles mesmo escolhem, porém nas circunstâncias encontradas, dadas e transmitidas do passado”, Andrew Keen acaba ressussitando uma meta narrativa que o passado e o presente estão sempre em tensão e sempre recorremos à tradição para sustentar nossas práticas sociais.

Vivemos tempos líquidos, o velho Zigmunt Bauman já nos alertou. Há mudanças estruturais profundas. Não é uma visão rasa e apocalíptica que vai explicar toda sua complexidade. Dizer que as redes sociais estão cumprindo ou até substituindo o papel do Estado-Nação foi demais para o meu bom senso. Andrew Keen pode entender muito de empreendedorismo digital, mas para explicar os impactos sociais com equilíbrio e muita reflexão..... o buraco é mais embaixo!

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Mixofobia: você sabe o que é isso?

A vitória de Donald Trump nos Estados Unidos não estava no script. Ele passou de um bonachão excêntrico, midiático para presidente da nação mais rica do mundo. O planeta inteiro tenta entender o presente com sua eleição e o futuro incerto sob o seu comando. Mas algo chama a atenção e que não é novo nos estudos sociológicos mas, merece uma importante reflexão: a mixofobia.
Não é de hoje que o estranho incomoda. Temos exemplos trágicos na história que comprovam isso... o nazismo foi prova viva do que estou falando. Depois de Segunda Guerra Mundial, o mundo procurou ser mais tolerante através, por exemplo, de tratados como a Declaração Universal dos Direitos Humanos promulgada pela ONU em 1948 que estabelece, pela primeira vez, a proteção universal dos direitos humanos.
Vários discursos de Trump revelaram sua mixofobia, principalmente, com os latinos. Chegou a chamar os brasileiros de “porcos latinos” e que ia construir um muro na fronteira com o México e “os mexicanos iam pagar por ele”.  Isso assustou o mundo. O seu discurso foi escancarado.... e o pior de tudo, acolhido pelos eleitores americanos.
O sociólogo polonês Zigmunt Bauman trata com muita propriedade sobre à mixofobia e a mixofilia. Como as cidades e os próprios cidadãos, tão heterogêneos, convivem com multiculturalidade.  Em seu livro “Confiança e medo na cidade” ele traz os conflitos e a necessidade que temos de conviver com o estranho. “A mixofobia e mixofilia coexistem não apenas em cada cidade, mas também em cada cidadão. Trata-se, claramente de uma coexistência incomoda, mas, mesmo assim muito significativa”.
Em um mundo que se diz globalizado e hiperconectado não é possível pensar em barreiras de proteção, mesmo assim, conviver com o estranho é difícil. Precisamos ainda discutir questões de gênero, de raça e de religião em sociedades que se acham tão evoluídas. O fantasma dos ideais nazistas ainda ronda muitos lugares. O discurso de Trump apenas escancara o quanto o outro incomoda, mas, ironicamente, consumimos aquilo que o outro produz em várias partes do mundo. A lógica do capital é cruel.

No seu mais recente livro “Babel: entre a incerteza e a esperança”, Bauman nos alerta para o caminho perigoso que a sociedade contemporânea vem construindo “de maneira pendular, nós vamos da ânsia por mais liberdade à angústia por mais segurança”. Essa segurança pode ser entendida sob vários pontos de vista. Que a história não se repita.  

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A solidão conectada dos nossos dias

As sociabilidades em rede têm uma representação muito grande na projeção do individuo. É importante traçar um perfil daquilo que se define como ‘rede social’ para entender como a evolução das redes na internet tem características distintas das ‘redes de movimentos sociais’. Para tanto, trago a definição clássica da socióloga Scherer-Warren, onde uma ‘rede’ se compõe de princípios que permitem a comunicação, articulação e intercâmbio entre os atores sociais. Isso significa dizer que uma ‘rede’ é fundamental para se estabelecer relações sociais, sejam elas de caráter afetivo ou profissional. 

 A ‘rede’ significa integrar a diversidade, se alimenta das práticas cotidianas para reforçar padrões ou determinar comportamentos. Essa ‘rede’, em sua essência, não nasce nas relações dentro do ambiente da cibercultura, mas, há uma projeção dessas redes com características bem específicas que contribuem para a disseminação de comportamentos narcísicos, potencializar as relações de consumo e reforça uma solidão conectada. Manuel Castells, também destaca o conceito de ‘rede social virtual’ como interpessoal, em sua maioria baseada em laços fracos (diversificados ou especializados) e são capazes de gerar reciprocidade e apoio através da dinâmica de interação sustentada. O indivíduo nas sociabilidades em rede, geralmente, reflete uma projeção de si e dos outros. 

Isso, essencialmente, pode acarretar uma série de comportamentos que proporcionam a construção das relações sociais em torno de interesses comuns, deixando de lado comportamento de uma vida pública. Mas esta forma de sociabilidade tão contemporânea que é a mediada por computador ela aproxima ou isola as pessoas? Na verdade, as sociabilidades em rede ampliam e permitem a criação de laços com desconhecidos e possibilita comunicação e visibilidades mais rápidas, sem a necessidade de intermediação para que isso aconteça. A possibilidade de ‘ver’ e ter ‘visibilidade’ pelas redes sociais amplia significativamente comportamentos de diferenciação social e de referência do indivíduo. É na cultura urbana onde estão centradas as sociabilidades em rede. Mais de que elementos alternativos de comunicabilidades estão se tornando uma extensão de práticas do cotidiano que refletem uma realidade marcada por laços fracos e especializados. A comunicação mediada pelas TIC’s está promovendo uma efetiva mudança nas relações sociais, na medida em que, o espaço público é reconfigurado em torno dos interesses individuais. A construção da identidade no ciberespaço ocupa um lugar de destaque na cultura contemporânea. 

Não basta apenas ter um perfil na internet, mas percebe-se que se corrompem as fronteiras entre o real e o virtual, o eu e o múltiplo. As mudanças comportamentais sugerem porque o computador, o smartphone, o tablet, muito mais do que máquinas utilitárias, se transformaram em máquinas intimistas. A identidade na internet, em certa medida, liberta o sujeito de pressões socais e padrões estabelecidos. No ambiente livre da internet é possível dizer a verdade, omitir a verdade ou criar um simulacro de si mesmo seja para aceitação grupal, seja para potencializar uma imagem de si mesmo. É nesse contexto que as manifestações narcísicas e as práticas de consumo simbólico se constroem. Dessa forma, é necessário está cada vez mais presente na internet. Sejam nas paginas pessoais em redes sociais ou blogs, espécies de diários eletrônicos onde as informações mais íntimas, mais analíticas ou mais desnecessárias são constantemente acessadas. 

Mas, quais são os efeitos das sociabilidades em rede na relação com outras pessoas? A socióloga Sherry Turkle responde dizendo que o individuo contemporâneo está aprendendo a ver-se como ‘tecno-corpos’, ou seja, sempre ligado ao ciberespaço, há um desinteresse nos locais que costumava reunir pessoas como praças, associações e sedes de sindicatos. “Muitas pessoas passam o dia sozinhas, diante do ecrã de uma televisão ou de um computador. Ao mesmo tempo, como seres sociais que somos estamos tentando tribalizar-nos”. Ao se conectar com pessoas através de fóruns de discussão, redes sociais, correio eletrônico e outras possibilidades de comunicação imediata que são oferecidas pela internet com pessoas de várias partes do mundo, o enraizamento e a importância de determinado local se atenua. Dessa forma, as sociabilidades em rede adicionam o elemento da cultura do computador na percepção da identidade como multiplicidade. 

Assim, há espaço para que o indivíduo possa construir uma imagem de si mesmo alternando com personalidades diferentes. A capacidade de adquirir várias identidades on line ocasiona mudanças significativas na tentativa do indivíduo de compreender a si próprio. Nesse caminho a solidão conectada se constrói. O escritor Mia Couto traduz de forma significativa os dias atuais “Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco (...) É verdade que as novas tecnologias não costuram os buracos da nossa roupa interior, mas elas ajudam a alterar as redes sociais em que nos fabricamos.” É pra pensar....

sábado, 14 de maio de 2016

O radiodocumentário: criando imagens através do som

Já diz um professor do curso de radialismo da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Sebastião Figueiredo, que o rádio é ‘teatro para cegos’. Isso é uma grande verdade! A linguagem radiofônica possui especificidades que exigem de quem está do lado de cá do microfone determinadas aptidões e técnicas para que a notícia seja bem entendida. Mais do que se ler uma notícia no rádio é preciso contar uma história e isso exige interpretação e utilização de recursos técnicos que auxiliem a compreensão da mensagem.
Catadoras de mangaba de Sergipe
O radiodocumentário, pode-se assim dizer, é a forma mais complexa de produção radiofônica porque exige do profissional uma apuração profunda dos fatos e uma sensibilidade técnica para utilizar os recursos sonoros adequados ao assunto que profundamente se quer explorar. Quando fiz o documentário “Catadoras de mangaba de Sergipe: como o associativismo pode garantir o sustento de uma comunidade extrativista”, vencedor do prêmio nacional de jornalismo do Sebrae 2012, na categoria radiojornalismo, muito mais de que coletar entrevistas e encaixá-las no texto, foi um grande desafio trazer para o rádio um universo que envolve a cultura da mangaba no Estado. O objetivo era não simplesmente retratar o trabalho dessas mulheres mas como a valorização do trabalho delas trouxe cidadania e elevou a autoestima. 
É importante também frisar que a mangaba faz parte da cultura dessas mulheres e existe tod
o um universo ligado ao patrimônio imaterial que é passado de geração para geração através dos cânticos populares. A mangaba é, por decreto, símbolo do estado de Sergipe. Elas vendiam o fruto in natura, de forma individual, e uniram forças para ampliar a renda ao fundar a Associação das Catadoras de Mangaba e Indiaroba (Ascamai). As catadoras também fizeram do movimento um front de luta pela preservação das mangabeiras que estão sendo reduzidas na região por causa da expansão imobiliária, da monocultura e do veneno derramado pelos tanques de criação de camarões. Elas lutam pela criação de uma reserva extrativista que possibilite a preservação da mangabeira e da tradicional cata do fruto. Procurei na matéria relatar as vitórias alcançadas pela Ascamai, com o projeto “Catadoras de Mangaba, gerando renda e tecendo vidas em Sergipe”, patrocinado pela Petrobras e desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Sergipe e Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional.
Por meio do projeto financiado pela Petrobras participaram de um vídeo-documentário sobre a vida delas e gravaram um CD com as cantigas que suas avós e mães cantavam enquanto catavam o fruto da mangabeira. A reportagem termina com trechos do canto das catadoras: “Vamos catar mangaba, vamos encapotar, o galho da mangabeira onde eu vou me balançar...” O radiodocumentário me possibilitou explorar esse universo tão rico e, acima de tudo, ter a oportunidade de dar visibilidade a uma comunidade muito carente, com a liberdade do rádio e os seus recursos que permitem o ouvinte ‘mergulhar’ no universo da história contada.

Ouça o documentário aqui: 


Artigo publicado no site da FITERT - maio/2013


quarta-feira, 6 de abril de 2016

A agonia de Eros e a cultura digital

Amore sulla Bilancia (Amor Sapientiae):
tarsia lignea del coro della Basilica di Santa Maria
 Maggiore in Bergamo
Uma das maiores preciosidades que os gregos deixaram para a humanidade temos, sem dúvida, a sua mitologia. Milhares de anos depois, seus mitos são sempre revisitados, reinterpretados e atualizados. Narciso e Eros são frequentemente evocados para explicar fenômenos que vão da psicologia a comportamentos da sociedade de consumo.
São dois referenciais de beleza e amor, muitas vezes destrutivos. Mas em Eros há algo que envolve mistérios que serviram de base para o desenvolvimento social do erotismo. Estou lendo o filósofo sul coreano Byung-Chul Han, que vem chamando a atenção dos estudiosos da cultura contemporânea para o que ele chama de “a agonia de Eros”.
Em pleno início do século XXI vivemos a sociedade dos excessos, da exposição sem mistério, do apelo escancarado que não dá espaço para a imaginação. Tudo se transforma em objeto de consumo. O narcisismo, por exemplo, não é amor próprio. O narcisista não pode fixar claramente seus limites, tudo tem que girar em torno do Eu.
 Acontece que o sujeito narcisista-depressivo está esgotado e fatigado em si mesmo. Como isso é possível? Byung-Chul Han diz que o corpo, com seu valor de exposição, equivale a uma mercadoria. Não há nenhuma ‘personalidade’ sexual. Se o outro se percebe como um objeto sexual, se desfaz aquela ‘distância original’ que impede que o outro se coisifique como um objeto.
Pelos meios de comunicação digitais, tentamos destruir as distâncias frente ao outro. Onde tudo é possível... não há amor como ferida e paixão. O amor e a sexualidade têm um preço. Suprime-se um desejo dirigido ao ausente. Aí onde Eros começa a agonizar.
A ética de Eros certamente não contempla os abismos de um erotismo que se manifesta como excesso e loucura, mas chama a atenção com insistência para a negação do outro, que está em vias de desaparecer em uma sociedade que se mostra cada vez mais exibicionista.
Byung-Chul Han fala de um amor domesticado que serve como fórmula para o consumo, como um produto sem atrevimento, sem excessos. Não há transcendência e nem transgressão. Somos sujeitos incapazes de concluir a vida. As imagens pornôs, por exemplo, mostram uma mera vida exposta. O pornô é a negação de Eros. Aniquila a sexualidade em si mesma. O obsceno no pornô não consiste no excesso de sexo, já que ali não há sexo. A sexualidade não está armazenada nessa ‘razão pura’. Para o filósofo, “a transformação do mundo em pornô se realiza com a sua profanação”.
Essa profanação se materializa com a desritualização e dessacralização. A ‘cara’ pornográfica não expressa nada, não há expressividade e mistério. A imaginação de internet parte de uma acumulação de atributos, mais do que uma visão global do objeto e, nesta configuração específica, as pessoas dispõem de menos dados, parecem menos capazes de idealizar. Sua imaginação esta determinada pelo consumo.
Os novos meios de comunicação não dão precisamente a fantasia. Mas, uma grande quantidade de informações, sobretudo visuais.  A hipervisibilidade não é vantajosa para a imaginação. Assim, o pornô, que de certo modo leva ao máximo a informação visual, destrói a fantasia erótica.
Platão disse que Eros se dirige a alma e tem poder sobre todas as suas partes: desejo (epithymia), valentia (thymos) e razão (logos). Cada parte da alma tem sua própria experiência do prazer e interpreta o belo de forma própria em cada caso. Essas três características agem articuladas. Na sociedade do consumo essa balança desequilibra pelas práticas de exposição e narcísicas. Vemos o fim da felicidade amorosa com uma prova de que o tempo pode abrigar a eternidade.

Eros agoniza em praça pública!!

quinta-feira, 17 de março de 2016

Internet e ação coletiva: os movimentos sociais que nascem na rede digital

Definitivamente, a tecnologia não pode ser mais vista como uma espécie de simples mediadora entre o indivíduo e o mundo. Há uma relação cada vez mais contínua de projeção da vida ‘on line’ nas sociabilidades. A determinação de comportamentos e modos de se relacionar não significa que se tem, na prática, uma sociedade tecnocrática, mas sim uma cultura amplamente tecnológica.
Com o advento da cibercultura as formas de comunicação sofrem um profundo impacto. Nos anos 90, o filósofo francês Pierre Levy já dizia que a virtualização promove aspectos muito particulares na relação das pessoas com os lugares e remete a características com a ubiquidade e simultaneidade. Uma das maiores mudanças vem de uma característica típica da cultura virtual que estabelece relações deslocando interconexões espaciais e temporais nas mobilizações e engajamentos.
O mundo virtual simula o mundo real da mesma maneira que o altera de acordo com as necessidades. Levy aponta, como exemplo, a possibilidade de explorar uma imagem virtual muito diferente da aparência física cotidiana, inclusive simular relações simbólicas que promovam uma espécie de comunicação que se reconfigura em torno de um universo de signos compartilhados.
A virtualização apresenta o desprendimento do aqui e agora. Mas isso não enfraquece a base de afinidades. Mesmo estando no campo do ‘não-presente’ há um misto de sentimentos e envolvimentos por parte das comunidades em rede. “A virtualização reinventa a cultura nômade, não por uma volta ao paleolítico nem às antigas civilizações de pastores, mas fazendo surgir um meio de interações sociais onde as relações se configuram com um mínimo de inércia”, diz Levy. Essas interações sociais adquirem características próprias que refletem as possibilidades das redes telemáticas: ubiquidade, simultaneidade e distribuição massiva.
É claro que o desenvolvimento das tecnologias da informação potencializa essas dimensões. Redes horizontais de comunicação multidirecional potencializam as interações e transformam a estrutura social. Um grande exemplo disso diz respeito aos diversos movimentos originados pela internet que eclodiram em várias partes do mundo. São movimentos urbanos que têm a característica reivindicatória própria dos movimentos sociais tradicionais, mas que tem como característica principal de ação coletiva a mobilização pela internet e suas diversas ferramentas de comunicação.
No Brasil, os movimentos organizados pela internet eclodiram em 2013 e, assim como os demais, provocaram um grande impacto e importantes discussões sobre o destino das mobilizações tendo como base a internet como o principal centro de agrupamento e articulação. Há algumas características importantes desses movimentos que incluem uma grande difusão das manifestações entre segmentos da população e locais onde não há grandes repertórios de contestação; a ausência de uma reivindicação comum; a velocidade surpreendente de propagação dos focos de protesto e a massiva mobilização de segmentos e pessoas que não participavam de organizações sociais ou políticas.
Mas é importante ressaltar que o impacto que a internet apresentou nas formas de mobilização e engajamento não se encerram no mundo virtual. A força dessa nova forma de ação coletiva se mede na ocupação dos espaços públicos. É  preciso pensar que o uso da Internet não conduziu a um domínio de ações e movimentos virtuais que têm precedência sobre as mobilizações em "espaço físico". Pelo contrário, desde 2011, a ocupação de espaços públicos urbanos e, em particular, lugares simbólicos, estão no centro destes movimentos. Enquanto a internet é um espaço virtual global, os usos das redes sociais de ativistas têm contribuído mais para construir movimentos nacionais ou locais. As redes sociais pela internet não têm substituído os meios de comunicação de massa na divulgação das ações. 
O sociólogo Manuel Castells chama de ‘espaço de autonomia’ essa nova forma de engajamento e articulação de grande quantidade de pessoas através da mobilização feita na internet. A potencialização do que é articulado no ‘virtual’, em rede, ganha corpo e locais definidos na ocupação do espaço urbano, através das manifestações nas ruas. O autor chama de ‘rede das redes’  esse tipo de movimento que se articula sem um núcleo institucional centralizado.


Há características definidas que transformam os movimentos sociais criados nesse ‘espaço de autonomia’. Seria uma nova forma espacial dos movimentos sociais que são articulados na rede. 1. Simultaneidade local e global: como essa organização é desterritorializada, a possibilidade de acesso às informações se torna cada vez mais fácil e viral. Para o autor, esses movimentos surgem com motivos locais, a partir de demandas mais restritas (como, por exemplo, o preço da tarifa de ônibus), mas, também são globais porque, através da rede, é possível compartilhar experiências e estimular o envolvimento e outros tipos de mobilizações; 2. Espontâneos em sua origem: a gênese desses movimentos que são gerados a partir da indignação compartilhada na rede e o poder do das mídias sociais; 3. Os movimentos são virais: o caráter difuso das manifestações segue a lógica das redes na internet. Assim, a ‘aproximação’ de manifestações em outros lugares estimula a mobilização. Isso se percebeu nos movimentos que foram deflagrados em países como Egito, Espanha e Brasil.
Mas há autores que contestam essa afirmação de Castells com relação a espontaneidade dos movimentos que, por si só, são organizados pela internet. Para o cientista político Marcelo Silva, que escreveu um interessante artigo chamado “#vemprarua: o ciclo de protestos de 2013 como expressão de um novo padrão de mobilização contestatória?”, os meios de comunicação de massa acabam difundindo essa ideia e que, na verdade, há tensões e grupos articulados por trás dos movimentos em todo o mundo.

O sociólogo Nestor Garcia Canclini também analisa as alterações nas mobilizações sociais mediadas pelas redes sociais digitais. Muito mais do que trazer novos paradigmas nas formas de encontrar-se, escrever e falar, as “mobilizações relâmpago” ou “flash mobs” são organizadas pelas redes de comunicação digital para uma série de reivindicações e mobilizações que, mesmo fora da mídia, há um grande apelo popular.

terça-feira, 8 de março de 2016

Amor e renúncia: a presença da mulher no Cangaço


Radiodocumentário Produzido em 2008

Diante do quadro de miséria e conservadorismo que se descortinava no sertão nordestino no início do século XX, as mulheres também eram vítimas. A educação da mulher sertaneja era resumida às habilidades nos trabalhos domésticos e a total obediência ao homem. Muitas eram vítimas da rigidez dos pais e, quando casavam, dos maridos.
Acompanhar os cangaceiros se tornava um atrativo porque eles eram considerados heróis pela comunidade sertaneja diante das muitas histórias que cercavam o cangaço. Era um misto de temor e fascínio por essa vida bandoleira sem respeitos às regras e normas vigentes. Até 1930, com a chegada de Maria Bonita no bando de Lampião, não havia mulheres cangaceiras porque os cangaceiros acreditavam que elas trariam discórdia e ciúmes. Alguns, como Corisco, por exemplo, eram casados, mas as mulheres não acompanhavam os maridos. 

Lampião conheceu Maria Gomes de Oliveira, Maria Bonita, no ano de 1929 na fazenda Malhada de Caiçara, perto do município de Santa Brígida, na Bahia. Ela tinha dezessete anos e era sobrinha de um coiteiro. Casada com o sapateiro José Miguel da Silva, Zé de Neném, ela viva em constantes desentendimentos com o marido. Para o historiador Antônio Amaury Corrêa, Lampião viu pela primeira vez Maria e passou a rodear a casa dos pais da jovem, apaixonou-se e no ano seguinte foi buscá-la para viver com ele. “Estava aberto o precedente. Dali pra frente, os chefes de grupos e muitos cabras passaram a se fazer acompanhar por amantes, amigas e até esposas”. 

Mais de quarenta mulheres passaram a participar dos bandos. Só da cidade sergipana de Poço Redondo, seis mulheres se tornaram cangaceiras. Mas, nem todas iam por vontade própria. Muitas eram carregadas das suas casas pelos cangaceiros, como Sila (mulher de Zé Sereno) e Dadá (mulher do Corisco). Assim explica o pesquisador Antônio Amaury Corrêa: “A Dadá, quando foi raptada por Corisco, essa sim com menos de treze anos, ela tinha doze anos, Corisco chegou à casa do pai da Dadá, no ano de 1927 e levou Dadá para companhia dele. Só que ele a deixou na casa de uma tia. Dadá ficou durante quatro anos na casa da tia de Corisco e quando Lampião levou Maria para sua companhia, Corisco tirou Dadá da casa da tia e fez com que ela fosse com ele para o bando. Ela conheceu Lampião no dia 24 de abril de 1931. Foi a primeira vez que Dadá viu Lampião e pelas circunstâncias que envolveram a vida dela no cangaço, acabou sendo uma chefe de grupo quando Corisco ficou aleijado dos dois braços”.

O pesquisador Jovenildo de Souza afirma que as mulheres deram um colorido especial e mais alegria a vida dos bandoleiros. Até para a dança do xaxado, foi uma revolução. O xaxado era dançado pelos cangaceiros com os seus rifles que eles chamavam: “Minha cara bina!”. Depois que as mulheres entraram, as carabinas foram substituídas por elas e, assim, podiam dançar seus cantos guerreiros. As mulheres tinham grande influência na vida e no comportamento dos cangaceiros, inclusive, segundo os historiadores, Maria Bonita era a única pessoa que conseguia se aproximar de Lampião quando ele estava irado, chegando até a conter sua ira. Havia grande respeito entre os cangaceiros e suas mulheres.

A entrada das mulheres no cangaço causou grande mudança no comportamento dos grupos. O senso de liberdade que o cangaço proporcionava, agora com a presença das mulheres, propiciou certa humanização na relação dos cangaceiros e suas vítimas. Mas para um cangaceiro em especial, chamado de Zé Baiano, a relação com as mulheres sempre foi conflituosa. Ele era conhecido pela sua crueldade ao ferrar o rosto ou nádegas das mulheres com as suas iniciais, “JB”. Era um hábito macabro que ele usava para vingar o espancamento sofrido por sua mãe por policiais que queriam saber do seu paradeiro. 

Esse cangaceiro também foi protagonista do mais violento drama passional que se tem notícia no cangaço. Zé Baiano levou Lídia, uma das mulheres mais bonitas a entrar no bando de Lampião, para viver com ele no grupo. Zé Baiano viajou por uns dias e Lídia aproveitou para encontrar-se com um cangaceiro chamado Beija Flor. Mas o casal foi flagrado pro outro cangaceiro chamado Coqueiro que ameaçou contar sobre a traição a Zé Baiano caso Lídia não fizesse sexo com ele. A cangaceira recusou a exigência e Coqueiro falou a Zé Baiano da traição da companheira. Ao romper do dia Zé baiano matou Lídia a cacetadas. Fraturara-lhe os braços e pernas com pauladas violentas e repetidas, por fim batera tanto na cabeça que esmagara-a, deixando a bela Lídia irreconhecível e, terminado o massacre, abrira uma cova enterrando-a. 

Mas havia um drama que era comum a quase todas as mulheres cangaceiras: o fato de abdicar da maternidade ou dos filhos que tinham. As crianças não eram bem vindas no bando, pois faziam barulho e poderiam chamar a atenção da volante. Os filhos das cangaceiras sempre eram escondidos e criados por coiteiros ou parentes dos cangaceiros. * Juliana Almeida – Jornalista e doutoranda em Sociologia